Afinal, as plantas sentem dor?

Algumas vezes os veganos e vegetarianos são vítimas de provocações a respeito do direito das plantas. Assim, muitas pessoas que comem carne alegam que os vegetais (e principalmente as alfaces) também sentem dor e que os vegetarianos e veganos não são tão melhores do que eles, pois estão matando e causando sofrimento, da mesma maneira que eles causam.

Este argumento é bastante infundado cientificamente, mas parece ter bastante força, principalmente para quem come carne. Ele serve como uma auto-justificativa de que está tudo bem e de que a escolha pelo churrasco não é anti-ética e apenas uma necessidade para sobreviver. Isso pode afagar o ego das pessoas, mas mesmo que as plantas sentissem algum tipo de sofrimento quando são mortas é de se pensar que o argumento ainda assim é infundado por uma simples questão matemática: se ambas as plantas e os animais sofrem ao serem mortos para alimentação, comer plantas ainda sim é menos danoso, já que para comer animais é preciso, da mesma maneira, matar plantas para alimentá-los. Ou seja, quando se come animais se mata duas vezes mais e se causa duas vezes mais sofrimento do que quando se come diretamente a planta.img_plantas_5Mas, claro que este argumento vem em último caso: no caso das plantas sentirem realmente algum tipo de sofrimento. Este é o caso?

Vamos começar pensando sobre o que é dor. Dor é uma reação negativa gerada pelo sistema nervoso do organismo, em relação a algum evento, objeto ou substância que esteja danificando algum tecido. Esta reação tem a função de ajudar o organismo a associar a sensação desprazerosa à substância ou evento nocivo, gerando um aprendizado e evitando que a aproximação do indivíduo para junto da substância ocorra novamente, podendo levar à morte do animal. É importante lembrar que o conceito de dor está mais ligado à sensação negativa do que ao reflexo motor de afastamento do objeto, ou seja, seria possível existir reflexo sem sensação negativa (tirar a mão do fogo como um auto-reflexo), mas neste caso, porém, não ocorrerá aprendizado, pois não haverá associação entre o estímulo que danifica (fogo) e a sensação ruim. Ou seja, a dor é muito importante, pois evita que repitamos o ato de se aproximar de objetos, substâncias e ocasiões potencialmente perigosas para a vida.

É preciso um sistema nervoso para que haja dor? Bem, é preciso que exista alguma rede de células que consiga capturar a informação de que o tecido está sendo danificado. No ser humano, por exemplo, existem neurônios especializados em gerar impulsos (ou potenciais de ação, tecnicamente falando) somente quando há dano no tecido. Em seguida, é preciso que a informação vá para uma rede central de neurônios que possa associar esta informação de dano a uma sensação desprazerosa – que pode ser a diminuição de substâncias que geram prazer ou que mantenham o corpo em equilíbrio (chamadas de neurotransmissores). É preciso que a resposta de associação seja imediata e que uma resposta de afastamento (reflexo de tirar a mão do fogo, por exemplo) ocorra.img_plantas_3

Claro que tudo está muito resumido, mas é necessário entender que é preciso ocorrer comunicação entre o ambiente externo e interno do organismo, gerando respostas de afastamento motor (movimento), emoções (medo – aumento da frequência cardíaca, por exemplo), sensação negativa de incômodo e associação desta sensação com o objeto danoso, gerando aprendizado.

Em primeiro lugar a função de comunicação não deve ocorrer necessariamente através de neurônios, ou seja, apesar das plantas não terem neurônios é bem possível que elas possuam células que comuniquem algum dano ocorrido em seu tecido. Aqui, eu falo algo que não é necessariamente cientificamente provado, mas é mais uma possibilidade filosófica, pois seria sim possível que outros tipos de células, que não neurônios, assumissem a mesma função que eles. Assim, é possível sim que exista uma espécie de rede difusa de células que comuniquem dano de tecido em plantas gerando uma resposta.

O problema é que apesar das plantas se moverem (em um ritmo quase imperceptível para nossos sentidos), a resposta que seria gerada não seria rápida suficiente para levar ao afastamento ou adaptação da planta ao agente nocivo – por exemplo, a um inseto que come suas folhas. Assim, não faz muito sentido que se tenha evoluído um sistema que gere um estímulo desagradável na planta, mas que não é eficiente, no sentido de não gerar uma resposta realmente significativa para a defesa e sobrevivência da planta.

Existem alguns relatos de pseudociência (estudos que alegam ser científicos, mas que não conseguem ser devidamente validados) que alegam que as plantas sentem dor.

Um dos livros mais famosos é o “The secret life of plants”, de Peter Tompkins e Christopher Bird. Neste livro alega-se, inclusive consciência em plantas.

Eu acredito que é possível sim que exista algum tipo de sensciência em todos os reinos vegetais, minerais e animais, mas isso não é nada científico, mas apenas uma expressão do reflexo do que considero ser o universo. Se existir de fato uma conexão entre os seres vivos e não-vivos, é possível sim que todas as formas se conectem de alguma maneira, mas no que se refere à dor como conceito científico – seu significado fisiológico e seu possível papel adaptativo na seleção natural – não faz sentido que plantas sintam, de fato, dor. Se sentem algo diferente, não sei, mas dor como os animais conhecem, não sentem.img_plantas_1Bem, isso não é uma justificativa para sair matando e desrespeitando a vida das plantas ou até de outras formas, como fungos, bactérias ou animais que alguns considerem possuir sistemas nervosos mais simples. O que devemos considerar é o sagrado da vida, ou para os mais céticos, o simples fato de que a vida é muito rara neste universo (pelo menos até o que sabemos). Se é assim, não existe motivo nenhum para matar e destruir qualquer criatura ou mesmo sair bravejando contra pedaços de pedra, simplesmente porque não se tem respeito a nada.
Ainda estamos longe de considerarmos a sacralidade da vida humana, de animais não humanos nem se fala, o que dirá de plantas, mas isso não é desculpa para ignorarmos seus direitos, mesmo que elas não sintam dor como nós entendemos.

No final, levando em conta a sacralidade da vida e mínimo respeito ao planeta e suas associações, sempre devemos refletir sobre nossos atos e as conseqüências para os outros seres vivos e associações de ecossistemas. Comer animais não é nenhum pouco necessário do ponto de vista biológico e, portanto, não pode ser ético de nenhuma maneira. Comer plantas, entretanto, já é uma necessidade e mantendo o respeito pela vida devemos então considerar como causar o menor dano possível ao seu direito de existência, afinal, todas as criaturas deveriam ter o direito a sua vida. Considerando isso, fica então aberta a questão sobre a mutilação que nossos hábitos vêm causando no planeta.

Ser vegano é muito ético, mas nem todo vegano considera o boicote aos transgênicos, aos agrotóxicos, ao óleo de palma, à poluição ambiental que seus hábitos vegetarianos podem causar se não realizados de maneira consciente. Assim, vamos tentar expandir o veganismo para algo ainda mais global, em que a vida e o equilíbrio dos ecossistemas seja também colocado em questão.

No fim, acredito que o veganismo seja apenas o passo inicial e de resto, falar de alfaces que choram e de legumes assassinados ainda não apaga o sangue, o terror e o genocídio que a gula da nossa sociedade faz com os animais. Vamos lembrar sempre disso: é pouco provável que as plantas sintam dor como a conhecemos, mas é totalmente provado cientificamente que os animais – que não temos necessidade de matar e torturar – sentem dor, medo e pavor, por isso, vamos dar um basta à violência que causamos!

Observação: de um ponto de vista filosófico não existe verdade absoluta, portanto existe uma pequena probabilidade de que plantas sintam dor, afinal existe também a possibilidade de que a teoria da evolução não esteja correta. Apesar disso, a probabilidade de que ela esteja correta e de que não faça sentido que plantas sintam dor é muito alta, portanto dei um peso maior a esta hipótese do que a outra, em que teria que desconsiderar o peso da seleção natural.

Texto autorizado pela autora / Pensando ao contrário / Autora Camila Victorino http://www.pensandoaocontrario.com.br