Entrevista com Bianca Marigliani – Vencedora do prêmio Lush Prize

A entrevista do mês de Dezembro é com a pesquisadora brasileira Bianca Marigliani que é doutoranda em biotecnologia pela UNIFESP e foi uma das vencedoras do Lush Prize 2015 na categoria Jovem Pesquisador. O prêmio Lush Prize incentiva pesquisadores do mundo todo a descobrirem métodos alternativos sem o uso de animais para testes. A conquista de Bianca é muito importante para o Brasil e um grande incentivo para que mais pesquisadores brasileiros, busquem métodos alternativos e com isso o fim dos testes em animais. O projeto escrito por ela visa desenvolver um método in vitro, e confirma que este além de ético pois não há o uso de animais também é tecnicamente melhor em relação a segurança dos produtos para uso humano. O método de Bianca tem como objetivo terminar com o uso de soro bovino fetal em testes, pois o método não ético (padrão) provoca por ano aproximadamente a morte de 2 milhões de fetos bovinos para serem usados para obter esse soro. Bianca Marigliani está fazendo doutorado no Laboratório de Imunoterapêuticos e Métodos Alternativos ao Uso de Animais (LIMAUA) sob orientação da Profa. Dra.Jane Zveiter.

O site Cultura Veg agradece a entrevista e parabeniza Bianca por sua luta pelos animais e pelo prêmio.

Decidi que queria dedicar minha carreira a colaborar com o fim do uso de animais

Gostaríamos de saber o que influenciou você a dedicar seu trabalho em busca de alternativas aos testes em animais?
O uso de animais em diferentes áreas sempre me pareceu antiético. Sou vegetariana há muitos anos e conforme fui progredindo na minha formação (sou bióloga especialista em biologia molecular, mestre em biotecnologia e doutoranda também em biotecnologia) e entendendo mais tanto sobre os testes em animais quanto sobre os métodos alternativos, decidi que queria dedicar minha carreira a colaborar com o fim do uso de animais.img_bianca-marigliani_1Na área acadêmica é difícil receber apoio para trabalhar em métodos alternativos (éticos sem crueldade animal)?
Essa é uma área recente no Brasil, os recursos destinados exclusivamente a isso são raros e temos poucos pesquisadores dedicados à substituição, mas aos poucos estamos nos organizando e progredindo. Um exemplo disso é o Instituto 1R (www.instituto1R.org), que se dedica exclusivamente à substituição do uso de animais em atividades de ensino, pesquisa e testes.img_bianca-marigliani_2

Mas não há dúvidas de que caminhamos em direção a um futuro sem testes em animais, é uma exigência da sociedade.

Você acredita que no futuro os pesquisadores irão buscar como você alternativas éticas ou a indústria em geral não se importa?
A indústria depende do consumidor. Conforme esse consumidor vai se informando e exigindo novas tecnologias — mais seguras e éticas — tanto a legislação quanto a indústria devem se adaptar. A indústria europeia, por exemplo, vem há muitos anos investindo no desenvolvimento de métodos alternativos, o que tornou possível o banimento de cosméticos testados em animais no ano de 2013. O Brasil vem caminhando a passos lentos nesse sentido, mas não há dúvidas de que caminhamos em direção a um futuro sem testes em animais, é uma exigência da sociedade. 

Hoje entendo que ser vegana é muito mais do que não me alimentar de animais

O que fez você despertar para o veganismo?
Sempre gostei muito de animais, desde muito pequena sempre achei que causar sofrimento aos animais (o que me incluía alimentar deles) era algo errado. Tive muitas fases e enfrentei muitas dificuldades ao longo da vida principalmente para eliminar os ovos e derivados de leite da dieta. Hoje entendo que ser vegana é muito mais do que não me alimentar de animais nem de seus “produtos”, e vou agindo conforme as minhas convicções, tentando fazer o melhor possível. É um compromisso ético, uma responsabilidade. Mas também é preciso cuidado para que atitudes impensadas não causem um efeito contrário do desejado.   img_bianca-marigliani_3

Você poderia indicar um livro ou filmes que podem ajudar outras pessoas a despertar para o veganismo?
Acho que o livro documentário “A carne é fraca”, produzido pelo Instituto Nina Rosa foi o que mais me impactou. O livro “Libertação animal”, do Peter Singer, também foi importante pra mim. Dos mais atuais recomendo o “Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas”, da Melanie Joy e “O manual de sobrevivência do vegetariano na cozinha”, do Flavio Giusti, pra quem quer aprender receitas descomplicadas. Recomendo também o livro do Professor Thales Tréz, recém lançado, “Experimentação animal: um obstáculo ao avanço científico”, para quem quer entender mais sobre esse assunto.

Você gostaria de deixar alguma mensagem para as pessoas?
Gostaria de agradecer e parabenizar todas as pessoas que, de alguma forma, estejam envolvidas em ações que tenham como objetivo beneficiar os animais.