Entrevista com o músico vegano Juninho Sangiorgio baixista do Ratos de Porão

Hoje temos entrevista exclusiva com o músico vegano Juninho Sangiorgio, que participou da organização da “Verdurada” (evento de grande repercussão do movimento “Straight Edge” no Brasil). Atualmente, ele está à frente do projeto “Hardcore nas Ruas” e ainda toca em 2 diferentes bandas: “Ratos de Porão”, e o “O Inimigo”.

Foto: Rodrigo Esper

Foto: Rodrigo Esper

Olá Juninho, primeiramente gostaríamos de agradecer pelo seu tempo e disposição!

CV – Para começar, nós sabemos que você é vegano e adepto do movimento “straight edge” assim, gostaríamos que você falasse brevemente sobre este movimento no Brasil e nos respondesse uma questão que freqüentemente nos ocorre: todo “straight edge” é vegano?  Ou toda banda “Straight Edge” é vegana?

O movimento straight edge no Brasil começou no final dos anos 80 com alguns adeptos que trocavam cartas com europeus e americanos, já que nesses lugares já existia há mais tempo.
As informações foram chegando bem devagar, e criou-se mesmo uma estrutura apenas na metade dos anos 90, que foi onde tiveram centenas de envolvidos por todo país.
O Straight edge surgiu pelo fato de no meio do punk existir muita droga, então, alguns indo ao contrário de se destruir pensaram em criar um movimento paralelo onde as drogas estariam longe dali, e era foco de muitas letras de músicas, onde faria mais sentido lutar contra isso, e não apoiar o uso.
Não, nem todo sxe é vegano, existem veganos e vegetarianos. Na verdade existem alguns que se dizem sxe, mas comem carne, mas eu desconsidero.
E não também para toda banda sxe ser vegana.
    
CV – No “Ratos de Porão” vocês formam 2 integrantes vegetarianos e você vegano. Vocês já pensaram em fazer algum álbum especial sobre libertação animal ou questões relacionadas ao veganismo?
No RDP apenas eu sou vegano, o Boka (baterista) é vegetariano, assim como o Gordo (vocal). Nunca pensamos no assunto por existir outro membro da banda que não é adepto, nosso guitarrista Jão.

CV – Agora falando sobre as bandas de hoje em dia: muitas delas, com vários estilos musicais diferentes, tocam no assunto dos crimes e abusos cometidos contra os animais. Alguma se destaca para você? Dentro disso, você acha que existe uma tendência das bandas de protesto atuais a começarem a compor mais músicas e até álbuns inteiros focados em temas ecológicos, libertação animal e política social?

Como estive sempre nesse meio eu percebo que isso na realidade era mais forte nos anos 90 do que agora. Existiu uma forte luta pelos direitos dos animais nessa época, e com ela, várias bandas estavam falando sobre o assunto. Acredito que nos dias de hoje ainda se fala muito disso, mas já é um assunto um pouco mais conhecido no geral, as pessoas de alguma forma sabem da existência do vegetarianismo e toda essa luta.
Naquela época esta se criando toda uma cultura, tinha pouquíssima informação, todos dessa época ajudaram a criar os resultados alcançados de hoje.

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Foto: montecruzfoto

CV – Uma curiosidade: como você faz quando sai em turnê com relação à alimentação? Você tem alguma estratégia, como comprar tudo antes e fazer lanches? Ou já faz uma lista dos restaurantes veganos da cidade? Já passou por alguma dificuldade em relação a isso?

Tanto no O Inimigo quanto no Ratos de Porão solicitamos comida vegana para todos, e na maioria das vezes isso é respeitado e já vamos comer em lugares específicos. Eu também me preparo em algumas viagens sim, levando umas castanhas ou mesmo um lanche para viagens mais longas que já sinto que vou me dar mal. Pegar o endereço de restaurantes vegetarianos é uma boa saída também, já fiz isso algumas vezes, é só torcer pra o local que formos tocar ou se hospedar ser próximo. Já tive sim dificuldade em relação à alimentação, algumas viagens onde parávamos na estrada onde não havia praticamente nada vegano para comer, arroz era com ovo, salada com presunto, feijão com bacon, uma tristeza, daí é dar uma segurada com uma batata frita, um pão e torcer pra chegar logo na cidade.

CV – Sobre isso, qual foi a cidade em que esteve em que foi mais fácil ser vegano e qual foi a pior?

Fácil são muitas, pois vejo essa facilidade em comer uma boa salada com arroz e feijão, legumes, coisas mais simples mesmo. Agora se for falar em coisas mais processadas podemos citar Berlin, que tem infinitas lojas com opções de sanduíches, pizzas, supermercado vegan, etc.
A pior foi uma vez que estávamos na Espanha, uma cidade daquelas bem pequenas que o povo faz até aquelas corridas de touros, lá só se come carne e tudo o que um vegano não come! Não lembro o nome da cidade, mas fiquei na rua esperando os outros comerem, não havia nada e ainda o garçom tirou um sarro da minha cara.

CV – E para terminar este assunto, o público te questiona sobre suas escolhas? Já aconteceu de vocês conseguirem despertar a reflexão em fãs sobre o problema da exploração animal na sociedade?

O público sempre pergunta, de algum forma somos pessoas mais vistas pela música, então sempre sabem o que estamos fazendo, nossas escolhas na alimentação.
Temos uma influência forte sob os fãs, é bastante gente que escreve dizendo que se tornou vegano, vegetariano, perguntando dicas, isso é muito positivo e interessante, eu levo bem a sério e sempre converso com as pessoas, pois não adianta apenas parar de comer carne, mas sim entender que isso é uma posição política, e tem muita coisa por trás para ser entendida.

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CV – Em geral, mais e mais pessoas estão se indagando sobre os direitos animais atualmente. Você também acha que mais pessoas estão despertando para o veganismo? E que em especial, os artistas veganos ajudam a despertar este interesse?

O veganismo está sim sendo levado a sério e o número de pessoas está crescendo. Os artistas e formadores de opinião são de grande importância para esse aspecto, são onde todos irão tirar as conclusões, vão ouvir as dicas, as explicações, por isso que digo que precisamos sempre trazer juntos a parte política, precisamos se despertar e entender todo o contexto.

CV – Falando agora sobre o projeto “Hardcore nas ruas’, a intenção é fazer um evento mensal? No mês de março houve uma edição especial do dia das mulheres, com palestras, bandas, oficinas e arte. Você poderia falar um pouco sobre este projeto?

O hardcore nas ruas é um novo projeto que começamos em novembro de 2014, a ideia é realizar de graça shows na rua, e trazer junto oficinas, bazar vegano, arte, palestras, etc.
Em maio tivemos especial dia internacional das mulheres, com todos participantes mulheres representando em diversas formas suas atividades políticas na sociedade.
A palestra foi sobre a posição da mulher negra feminista, onde existe uma diferença de classe quanto às posições dentro da sociedade. O bazar vegano foi organizado por uma mulher e tivemos o cuidado de termos preços acessíveis, pois a ideia é divulgar um veganismo cada vez menos elitista, temos que mostrar que ser vegano não é ter que gastar mais com comida, e sim se alimentarmos com as coisas mais simples.
tivemos uma oficina de bike dada pelo grupo Pedalinas, ensinando como arrumar problemas básicos e regulagens da sua bike.
A outra oficina foi de stencil com as meninas do grupo Não Mate, um grupo muito presente em SP, atuam nas ruas o tempo todo e passam ensinamentos sobre veganismo para todas as idades. Tivemos também 2 artistas fazendo um live painting durante as apresentações das bandas. Em 2015 iremos realizar mais 4 eventos até o final do ano.

CV – Para finalizar gostaríamos de saber se você poderia nos indicar os principais filmes ou documentários, livros e bandas que lhe influenciaram no seu percurso dentro do veganismo.

Deixa eu pensar em alguma coisa aqui:

Filmes e documentários:
– Earthlings, Thrive, Carne é Fraca, Revolução dos Bichos.

Livros:
– As Veias Abertas da América latina, Libertação Animal, Alimentação sem carne e Jaulas vazias.

Bandas:
– No violence, Nations of fire, Earth Crisis e Personal Choice

Gratidão pela entrevista Juninho!
Equipe Cultura Veg.