Entrevista com o Rapper Vegano Marcos Favela

A entrevista hoje será com o artista vegano Marcos Favela, adepto e ativista do Movimento Hip Hop desde 1995, aprendeu a renvindicar seus direitos através da música Rap. Desde então sempre esteve ligado a Projetos Sociais em especial com crianças e adolescentes. Ficamos muito gratos por ter aceitado nossa entrevista para o site Cultura Veg.

Para começar, você poderia nos dizer quando começou sua carreira como rapper e se já se dedicou a outros estilos musicais?

Minha carreira como Rapper se iniciou em 1995, mas foi em 1992 que tive meu primeiro contato com o Movimento Hip Hop, através de um falecido amigo. Ele me mostrou que através do Hip Hop, eu poderia expressar minhas idéias e anseios por melhorias na minha comunidade. Assim, comecei a fazer alguns desenhos, que nem chegam perto do real Graffiti, e, em seguida, comecei a “discotecar” em dois aparelhos chamados na época de “3 em 1”. Com o tempo, consegui comprar 2 “pick ups” (toca discos) e um “mixer” e então me tornei um DJ. Em um belo dia, fui a uma festa de Hip Hop, onde iriam tocar 2 grupos de Rap daqui de Mogi: “Conselho Racial” e “J.N.R.” (Justiça Negra Radical). Até então, eu só tinha ouvido grupos de Rap de fora da minha cidade, mas quando os caras subiram ao palco, reivindicando melhorias para a nossa “quebrada” e rimando contra o preconceito, meus olhos brilharam e falei pra mim mesmo: “os caras são daqui de onde eu moro, lutando por aquilo que acreditam. É isso que eu quero!”. 

    Desde então, fui buscando mais informações e coletividade para com aqueles que já estavam na atividade e, em 1995, foi o ano que realmente me iniciei como Rapper.  Nunca fiz parte de outro estilo musical, mas sempre participei e curti estilos variados como Rock’n Roll, Hardcore, Punk, Ska, Grindcore; também já colei em várias rodas de Samba de Raiz e vários coletivos diversificados.

Dentro deste assunto, você começou sua carreira já como vegano e pronto para usar a arte como forma de expressão a favor dos animais? Ou foi o rap que começou antes e o veganismo moldou o seu modo de compor as músicas?

Comecei com o Rap primeiro e há 10 anos atrás, conheci o Vegetarianismo através da minha esposa Juliana Mendonça. Ela se tornou Vegetariana por amor aos animais e foi me influenciando através das revistas que ela comprava, bate-papo e muito amor. 

    O meu Veganismo veio há cerca de 2 anos e digo que o Hip Hop me preparou e muito para essa mudança de filosofia de vida, pois bastou assimilar a luta por justiça e direitos, que o Hip Hop sempre pregou, com a luta por justiça e direitos que o Veganismo prega. Outra parada legal de falar aqui, é que o Hip Hop me preparou para o Veganismo e o Veganismo me preparou para a desconstrução de muita coisa que eu fazia e hoje já não faço mais. Me refiro, por exemplo, a uma herança patriarcal machista, da qual eu não tinha idéia de que existiam tantas coisas, pensamentos e atos considerados “normais”, mas que são culpados por tantas mortes e injustiças.

unnamed (3)

O rap e o hip hop sempre estão carregados de letras políticas, mas é rara a presença do tema de exploração animal. Assim, como seus colegas músicos veem seu trabalho? Já aconteceu de você conseguir gerar reflexão neles sobre o tema u eles fingem não ver?

Para essa pergunta, vou ter que responder em duas partes:

1ª parte: 

    Realmente, o Rap Nacional é o maior veículo de protesto que o povo tem nas mãos e é até legal ressaltar que o Brasil é considerado por muitos Rappers estrangeiros como o Rap mais politizado do mundo. Quanto ao fato de não haver muitas letras de Rap que abordem diretamente a Libertação Animal, infelizmente é verdade, todavia, a coisa vem mudando com o aumento do numero de pessoas que se tornam vegetarianas, veganas, frugívoras e tal; vem aumentando também o numero de adeptos e ativistas dentro do Hip Hop, preocupados com a Libertação Animal. Sei que tem muita gente vegetariana no Hip Hop, entretanto ainda temos que esperar o momento dessas pessoas transpassarem o vegetarianismo alimentar, para incorporar a Libertação Animal ao seu cotidiano e no Hip Hop.

2ª parte:

    Quanto ao público do Hip Hop fingir não ver a crueldade existente no consumo de derivados de animais, creio que não seja exclusividade do público do Hip Hop, pois é o que acontece com a maioria da população. Somos condicionados a achar que nossas atitudes, por um bem-estar humano, não afetam as outras espécies ou o planeta. Nós, Veganos ou Vegetarianos, nos deparamos muitas vezes com argumentos falhos criados por uma sociedade escrava do paladar e do consumismo , onde se perpetua que se for para o bem-estar do ser humano, está tudo bem matar um animal para se alimentar ou se vestir. Pra mim, a televisão, a religião, o governo e as empresas multinacionais são os reais culpados, mas a sociedade e seu bem-estarismo também tem a sua parcela de culpa. 

    Às vezes, sou alvo de comentários vazios ou olhares inquisidores, mas está aumentando o numero de pessoas interessadas em conhecer mais a filosofia Vegana e para mim está sendo positivo e vou continuar plantando esta semente.

Agora sobre suas apresentações. Você costuma se apresentar em festivais mais voltados para o público vegano ou mais plurais? E quanto aos mais diversificados, você tem uma boa recepção ou já aconteceu de alguém mostrar claramente que não está gostando da verdade sobre o extermínio animal?

Sempre fui de fazer apresentações para públicos diversificados e não me prendo a um ou outro, pelo fato de que posso aprender cada vez mais com a diversidade. Quanto a aceitação, bem, nos eventos Veganos é suave; posso falar explicitamente sobre a crueldade com os animais; já nas comunidades e periferias, tenho que ter certo bom senso, pois como citei acima, a maioria da população está condicionada a certas coisas e chegar metendo os pés no peito do povo, acho que não seja o caminho adequado, entretanto minhas letras eu canto sem censura , pois é um pensamento e reflexo do que eu sou; mas no diálogo temos que ser mais flexíveis.

    Recentemente, eu participei da Virada Cultural Paulista aqui em Mogi das Cruzes e lá deixei o público em choque. Aproveitei a estrutura do evento e, em parceria com o Bruno Azambuja e a Rachel Solar, ambos voluntários do “Veddas”, fizemos um show com exibição da realidade sobre o consumo de derivados animais no telão ao fundo do palco, além de vários banners, panfletos e uma bancada com os vídeos do já conhecido “Veddas Cart”. Depois deste dia, muita gente veio a mim perguntando o que foi aquilo que eu fiz e eu respondi: “não fui eu! São vocês que fizeram aquilo”. De fato, eles não esperavam ver tanta realidade explícita. 

    Minhas amigas e amigos músicos respeitam bem minha filosofia de vida e creio que seja porque sempre fui transparente sobre o que eu penso ou o que eu quero. Mas teve uma vez que um cara ficou me fuzilando com os olhos quando cantei meu som “Circo de Horror (Odeio Rodeio)”, de repúdio aos Rodeios e similares, mas tá limpo! Deveria ser mais um explorador de animais.

unnamed (2)

Agora sobre o seu álbum “Contra o extermínio”. Quais foram os artistas que te inspiraram para a confecção do álbum?

Sobre o Álbum Contra o Extermínio, com certeza tive muita influência musical do BALACLAVA, pois foi o primeiro grupo que ouvi com a temática sobre Libertação Animal. Mas em relação à inspiração para escrever minhas letras de Libertação Animal, digo que a “culpa” é de vídeos como “Terráqueos” e “A Carne é Fraca”. Já as letras mais sociais, foram os protestos que aconteciam no momento que me influenciaram.

Boa parte das minhas músicas são apenas o que eu vivo: as influências são o cotidiano violento de toda periferia.

E sobre os artistas, você conhece mais artistas do hip hop e rap nacional e internacional que estão engajados na luta de libertação animal. Se sim, poderia nos citar alguns?

Antes de responder essa pergunta, vou explicar uma parada a quem interessar; é apenas uma idéia pra somar. É comum as pessoas acharem que o termo “Hip Hop” seja uma atividade, como dizem por ai: “Você dança Hip Hop?” ou “Você canta Hip Hop?”. O termo Hip Hop é dado ao Movimento que surgiu na década de 80 e este movimento é formado por quatro elementos: o “Breaking” (dança), o “Graffiti” (desenhos), DJ (discotecagem) e o MC (mestre de cerimônias – rap).

        Voltando à pergunta, quando resolvi escrever algumas letras de Abolição Animal, comecei a pesquisar na internet se existiam outros grupos com a mesma ideologia que eu e descobri no Brasil o grupo BALACLAVA que, na minha opinião, é o que mais representa o protesto dentro do Rap Abolicionista, pois além de abordar a Libertação Animal, eles ainda relatam toda a injustiça social com sua letras anarquistas e antifascistas. 

   Também tem um cara que considero como irmão, o Elton Kuts (Unio MistyKa). Há pouco tempo, ele fez um Rap que já é um marco na história do Rap Combativo: “Garis Insurgentes”, o qual é em apoio à greve dos garis do Rio de Janeiro e também de Brasília. Conheci o “Menção Honrosa”. Mas existem outros chegando por ai, preparando seus trabalhos para somar na luta pela Libertação Humana e Não Humana.

    Já fora do Brasil, existem vários grupos, como alguns integrantes do “Wu Tang Clan”, “KRS-One”, “The Roots”, “Sage Francis”, “Chuck D”, “K-OS”, “Common” e muitos outros.

Como você se tornou vegano e qual foi a reação de seus amigos e familiares?

Me tornei Vegano há cerca de 2 anos e sou Vegetariano há 10 anos por influência da minha esposa Juliana Mendonça. Meus familiares mais próximos, mãe e pai, se acostumaram rápido, mas os demais parentes, eu nem sei, pois não sou muito de visitar parentes; amigas e amigos já se acostumaram e uns até elogiam, dizem que realmente é muita crueldade o que o ser humano faz com os animais e assumem o papel cruel do bem-estarismo, para não dizer comodismo. 

    Já estou com quase 40 anos, então já me enquadro no tipo “véio chato”, pois sempre que ouço ou leio algo dos amigos e amigas, dou minha opinião libertária. Tem um camarada que já me falou: “não vou mais discutir com você porque você sempre tem argumento pra tudo” (risos).

    Até meu pai fala que não sei ficar calado e aí eu o lembro de que a culpa disso é dele mesmo, pois desde o dia em que ele me apresentou, em 92, a um folheto de eleição para chapa 1 e chapa 2 do Sindicato, reivindicando melhores condições de trabalho aos operários, eu nunca mais fui o mesmo!

Você poderia nos citar um livro, um filme e um artista que você realmente recomenda para o pessoal que quer aderir ao veganismo ou mesmo para veganos em busca de inspiração?

Acho que o livro da vez é o “Galactolatria, mau deleite”. De filme, eu indico dois não veganos. O primeiro é o “Faça a Coisa Certa”, do diretor Spike Lee. Podem achar estranho, mas indico também o desenho “Horton” e o “Mundo dos Quem”, pois nunca vi um desenho com uma história tão realista e completa sobre a vida, companheirismo, sociedade e compaixão como este desenho.

    Já artistas, indico a vocês os trabalhos do Vegano Maurício Kanno, pois além de um amigo maravilhoso, ele é um talento nato! E para completar, indico também os trabalhos do escritor e poeta Sérgio Vaz.

E para terminar Já existem novos trabalhos para o futuro ou alguns shows planejados?

Estou escrevendo novas musicas, mas sem data prevista, pois estou com várias atividades paralelas. Sou um dos dirigentes da recém-inaugurada “Casa do Hip Hop,” de Mogi das Cruzes, e, em breve, estarei organizando um projeto de inclusão da Libertação Animal, dentro do Hip Hop, na região. Também sou voluntário em alguns coletivos, entre eles o “Coletivo do Morro” e a “Casinha”, na qual, em breve, estarei iniciando uma Oficina de MCs para as crianças e jovens da comunidade. Sou Sócio Educador, dando aulas de MCs para crianças e jovens.

    E quanto à agenda de Shows, peço para as pessoas acompanharem e compartilharem minha página no Facebook, pois sou um rapper independente: os convites aparecem de repente, eu topo e já lanço na página. Bem, acho que é isso! Agradeço de coração pelo espaço cedido e finalizo dizendo a todos e a todas para que não parem só no veganismo , pois existe muita coisa a se desconstruir e muita coisa a se construir.

    “Para mim o respeito à vida tem que ser amplo. Se um ser nasce, ele tem o direito de viver e ser livre”.

    Paz , saúde e liberdade!

Confira abaixo videoclipe do rapper:

Marcos Favela – Contra o Extermínio