Especismo zen: o descaso da Monja Coen pelos animais e pelo veganismo – Resposta

Abaixo um texto completo como resposta a entrevista da monja Coen, escrito por Robson Fernando de Souza autor dos sites Veganagente (clique aqui), Consciencia.blog.br (clique aqui) e do livro “Veganismo as muitas razões para uma vida mais ética” (clique aqui), o site Cultura Veg agradece imensamente pelo brilhante texto.

No último dia 17, numa entrevista ao programa Pânico, da Jovem Pan, a Monja Coen, praticante do zen-budismo, foi perguntada por Luisa Mell se era vegana ou vegetariana. Afinal, religiões como o budismo e o taoísmo possuem uma ótima afinidade com o vegetarianismo e o respeito aos animais, ainda que não o coloquem como uma obrigação.

Para a surpresa de muita gente, ela afirmou que não é, e tentou justificar seu consumo de produtos animais de uma maneira bem enrolada e preconceituosa. Acabou propagando algo bem oposto ao que sua espiritualidade prega em consideração moral pelos animais.

Venho aqui trazer a devida resposta vegana à posição especista da monja. Quero mostrar o quanto sua relutância em considerar o veganismo a põe em contradição com seus próprios valores morais. 

O que ela falou em sua entrevista

Ao ser questionada por Luisa Mell sobre se era ou não vegana ou vegetariana, Coen respondeu que não era. Em seguida, contou uma história em que jesuítas portugueses teriam convencido uma população hindu de que “não fazia mal” matar bois e comer a carne dos seus corpos, e que isso iria “acabar com a fome” deles, o que teria resultado no abate dos bovinos da localidade.

Emendou que “hoje em dia o que é importante é que a gente não queira matar quem pensa de forma diferente de nós”. Ficou compreensível aqui uma insinuação preconceituosa de que veganos e vegetarianos em geral são intolerantes ao ponto de defenderem ou aprovarem o assassinato de onívoros.

A monja completou essa parte da sua fala que “ser vegetariano é uma opção de poucas pessoas que têm capacidade de optar o que vão comer. A maioria da população da Terra não pode optar pela comida”.

O que se seguiu foi uma cena absurda, com requintes de machismo, protagonizada pela equipe do Pânico, de silenciamento contra Luisa, cuja fala sobre a acessibilidade da alimentação vegetariana foi interrompida por eles. Provavelmente ela iria dizer que, se a monja fosse procurar saber melhor, perceberia que a alimentação vegetariana pode ser muito bem adotada por pessoas pobres, e que a pecuária latifundiária é em parte responsável pela distribuição desigual dos alimentos entre a humanidade. Mas foi impedida de falar.

Depois de Luisa se sair do silenciamento falando que imaginava que a monja fosse ao menos vegetariana e tivesse bastante a ensinar sobre a alimentação, Coen contou uma história sobre o Dalai Lama.

Segundo ela, ele continua comendo carne trazida escondida do Tibet, e afirma que “algum dia” pode vir a se tornar vegano. Mas não o seria ainda por sua condição de ter crescido numa cordilheira onde supostamente “não existe verdura, só existe neve (uma informação falsa, uma vez que no Tibet existem plantações de cevada, alface, milho, arroz, ervilha, batata e outros vegetais comestíveis), e a única coisa (sic) que tem para comer é o bichinho (sic)”.

Logo após, Coen diz que já teve “etapas vegetarianas” ao longo de sua vida, ou seja, já parou de comer carne em alguns momentos mas acabou voltando. E emenda com uma história de que uma amiga sua “teve tanta falta de vitamina B12 que começou a cair na rua”. Usa isso como justificativa de que “para nós mudarmos as nossas dietas se nascemos comendo carne, nós podemos mudar, mas é preciso ter muito cuidado em fazer isso para não danificar o seu corpo”. Nesse momento o vídeo da parte da entrevista do Pânico sobre vegetarianismo se encerra.

Embromação, preconceito e falta de senso espiritual: as características da convicção especista da monja

Pude perceber que o discurso dela sobre por que não é vegana nem ao menos protovegetariana é bastante embromado. Além disso, ela ignorou completamente a questão dos Direitos Animais, a forma como o budismo trata a vida senciente não humana, e os impactos ambientais e humanitários da pecuária e da pesca.

Aliás, ela naturaliza o consumo de produtos animais, retira qualquer preocupação espiritual sobre a vida animal não humana. Usou como pretextos, na entrevista, o conto dos jesuítas matadores de bois, o suposto caso de sua amiga que sofreu de deficiência de B12 e a falácia da restritividade socioeconômica da escolha alimentar.

E ainda trouxe uma insinuação bastante desrespeitosa, a de que nós vegans e vegetarianos podemos chegar ao ponto de matar quem não aceitar abandonar o consumo de produtos animais.

E brindou com um preconceito sobre a salubridade da alimentação vegetariana. Ela deixa a entender que ser vegetariano ou vegano inspira “muita cautela” e “altos riscos” de deficiência de nutrientes, algo com que diversas entidades públicas de saúde e nutrição ao redor do mundo discordam enfaticamente – vide o Ministério da Saúde e o Conselho Regional de Nutricionistas da 3ª Região no Brasil, o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido e o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

Ela deixa claro que seu aconselhamento espiritual serve apenas para os seres humanos, e nem é para todas as ocasiões em que há gente sofrendo e precisando de uma luz do zen-budismo ou de outras religiões que eventualmente influenciam o trabalho da monja.

Para ela, não precisam importar para uma pessoa que busca pela iluminação espiritual:

  • O sofrimento dos animais e a necessidade de se ter empatia por eles;
  • O ensinamento das obras sagradas do budismo, do taoísmo, do espiritismo, do hinduísmo, do jainismo, da Igreja Adventista, da Wicca e de outras religiões que pregam a harmonia entre os seres humanos e os seres não humanos da Natureza;
  • A consciência ambiental, a ligação entre o ser humano e a Natureza que o cerca – considerando que a pecuária e a pesca que a monja aprova são hoje duas das piores atividades humanas existentes para o meio ambiente;
  • A preocupação com o sofrimento de muitos seres humanos, como os trabalhadores escravizados ou semiescravizados por fazendas, granjas e frigoríficos; os enfermos que sofrem de câncer, diabetes, doenças cardiovasculares e outras causadas ou potencializadas pelo consumo de carne; os indígenas, quilombolas e ribeirinhos perseguidos, expulsos de suas terras e mesmo assassinados por latifundiários e seus capangas; os cidadãos prejudicados pelas políticas reacionárias da bancada ruralista, defensora dos interesses dos pecuaristas etc.;
  • A busca pela evolução da sua compostura ética – a monja está num estado de conformismo nessa parcela da abrangência dos ensinamentos das religiões orientais;
  • O desapego dos “prazeres da carne” (tanto no sentido das sensações efêmeras do corpo humano quanto no literal de consumo de carne animal) em favor da virtuosidade do espírito;
  • entre outras questões que religiões como o budismo defendem há milênios, mas a monja convenientemente deixa de lado quando o assunto é Direitos Animais e veganismo.

Além disso, ela dá como desculpa a dificuldade da maioria dos seres humanos de fazer escolhas alimentares e assim aderirem ao veganismo. Mas para por aí, não parece se engajar em mostrar para aquelas pessoas que já têm o poder da escolha o quanto o veganismo é ético e pode ser saudável para o corpo e o espírito. Tampouco se interessa em ajudar quem tem pouco ou nenhum poder a adquirir as condições de se veganizar.

Isso acaba revelando um certo desinteresse, ou no mínimo um interesse seletivo e limitado, dela em ajudar a combater as desigualdades sociais. Consideremos, nesse caso, que a grande razão de tanta gente alegadamente não poder escolher comer apenas produtos não animais são a pobreza e a miséria, que por sua vez advêm das desigualdades inerentes à ordem socioeconômica capitalista de fraca regulação em que somos obrigados a viver.

Considerações finais

O caso do “especismo zen” da Monja Coen nos ensina que muitas pessoas que se dizem fortemente espiritualizadas não se importam em violar ou ignorar os ensinamentos nos quais dizem se inspirar, quando o assunto é ética animal e veganismo.

Fica a lição: desconfie de pessoas “espiritualizadas” que rejeitam o veganismo. Em função de sua indiferença pela vida dos animais não humanos e de muitos seres humanos, no interior delas continua residindo muito daquilo, em se tratando de desvalores morais e espirituais, de que elas dizem ter se livrado.

Questione-as se elas estendem sua mão “abençoada” para os animais não humanos e os seres humanos afetados pela economia da exploração animal, ou se essa mão lhes dá um gesto de “sai para lá”.

À monja, eu gostaria de dizer que desejo muito que ela passe a ter o interesse de expandir sua virtuosidade espiritual e conhecer o veganismo, seus princípios éticos e suas razões de existir. E lamento que sua falta de empatia e amor-ao-próximo pelos animais vítimas da pecuária e da pesca acabe retirando uma notável parte da valiosidade de seus ensinamentos perante os veganos e defensores dos Direitos Animais.